Morin

Para Touraine e Morin, país deve evitar confronto sobre Alca

Napoleão Sabóia
Estado de São Paulo, 31.12.2002, 2002

Sociólogos sugerem a Lula que dê 'tratamento lúcido e sem preconceito' à cooperação com EUA

PARIS - Evitar a confrontação com os Estados Unidos em torno da criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e outras questões das relações da América Latina com os EUA deve ser preocupação tão prioritária para o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, quanto as reformas para melhorar as condições de vida dos brasileiros. Ao exprimirem essa opinião ao Estado ontem, os sociólogos Edgar Morin e Alain Touraine se mostraram de acordo em que Lula deve dar tratamento "lúcido e sereno, sem os velhos preconceitos da esquerda latino-americana", à cooperação política e econômica com os EUA.
"O melhor que Lula fará para reforçar o poder de negociação do Brasil e da América Latina com os EUA na perspectiva da Alca é contribuir na construção da solidariedade efetiva dos países da região, para que tenham uma posição comum nas discussões", disse Morin.

Para Touraine, as condições políticas para a construção dessa solidariedade nunca foram tão favoráveis. "Os latino-americanos dispõem, hoje, de uma liberdade, uma margem de manobra inédita na cena internacional, ante as prioridades estratégicas dos EUA no Oriente Médio, que exigem concentração imensa de esforços."

Touraine aplaudiu a revisão nas concepções do PT sobre a participação do Brasil na Alca. "Lula acabou adotando uma posição mais moderada no caso, e com razão", comentou. "A Alca é a única alternativa realmente substantiva que resta à América Latina para acelerar seu desenvolvimento nas próximas décadas. Cabe ao Brasil e aos demais países da área se organizarem no quadro do Mercosul e fora dele, incorporarem o peso vital do México no esquema para uma negociação equilibrada com Washington."

Morin e Touraine avaliam ainda que as esquerdas européias podem oferecer "apoio moral e político ao governo Lula", mas não constituem uma referência na qual os petistas possam se inspirar. "As esquerdas na Europa estão desarticuladas, falidas, sem inspiração nem fôlego, faltam-lhes líderes com carisma, o elã para a forja de novas idéias que relancem a social-democracia em crise na Alemanha e nos demais países europeus."

Diante disso, Morin acha que Lula deveria considerar com atenção a possibilidade que lhe abre o Parlamento Europeu para estabelecer uma cooperação com o conjunto das forças políticas representadas, não apenas de esquerda. A seu ver, o início de tal cooperação poderia ser concretizado com a ida do novo presidente ao Parlamento Europeu, atendendo ao convite que lhe será feito em breve, para expor seu programa de governo.


Parlamento - "O Parlamento será caixa de ressonância excelente para o ideário latino-americano do governo petista", disse Touraine. "Ninguém, contudo, deve ter ilusões sobre a capacidade de a UE, às voltas com a incorporação dos países do Leste, abrir a curto ou mesmo a médio prazo espaço para uma cooperação econômica estreita e substancial com a America Latina. Daí a importância da Alca na outra ponta."

Sobre questões internas, Touraine e Morin também se mostram afinados. Ambos pensam que a pobreza no Nordeste merece cuidados especiais, mas isso não deve ser feito em detrimento da atenção requerida pelos bolsões de miséria e pelas crises que afetam o sul, em particular os grandes centros.

"Tudo que podemos desejar ao novo presidente num contexto mundial extremamente desfavorável é muita sorte, mas nenhuma radiosa profecia", concluiu Morin. Touraine lamentou que intelectuais brasileiros não reconheçam méritos do governo Fernando Henrique. "A melhor demonstração de que ele agiu acertadamente está no fato de que Lula dará continuidade às suas diretivas, a começar pela proteção da estabilidade política e econômica que garante hoje ao Brasil a imagem de país sério e responsável."