Morin

Cinco séculos do pensamento francês

Jean François-Dortier
Revista Ciências Humanas – série especial número 06, 2007

Edgar Morin, o último dos pensadores?
Reconciliar o homem com o primata, colocar fim ao conflito natureza/cultura, colar novamente os pedaços dispersos dos saberes sobre o homem: tal é o desafio proposto por Edgar Morin no final do século XX, o que faz dele o pensador mais ambicioso desse começo do século XXI. pp.100.101

As Ciências Humanas vivem o tempo dos pesquisadores, e os pensadores quase que desapareceram. Edgar Morin, nascido em Paris em 1921, talvez seja o último entre eles.
Ser pesquisador, é ser especialista de um domínio: psicologia da criança, historiador da Idade Média, economista das  finanças ou sociólogo do trabalho. Graças a essa hiper especialização das áreas, nossos conhecimentos se restringiram, empilhados e diversificados. Mas  qual é o cerne dessas grandes questões?
A natureza humana, o funcionamento das sociedades ou a dinâmica da história escapa à pesquisa especializada que não é feita para responder a este tipo de interrogações. Quando chega o tempo de juntar as peças do puzzle para recompor um pensamento global, a pesquisa especializada está desarmada.
Pensar o ser humano e a dinâmica das sociedades na sua globalidade exige uma certa ambição intelectual, uma cultura não confinada, mas também os instrumentos mentais adaptados a uma tal empreitada. Eis o objetivo ao qual se propôs Morin com seu grande projeto: pensar a complexidade.

À procura do método.
Para compreender esse projeto, voltemos trinta anos atrás, em 1977. Morin já tem atrás dele uma carreira de pesquisador bem realizada.
Ele liderou uma função de sociólogo e de intelectual. Entrou no CNRS (Centro Nacional da Pesquisa Científica) no início dos anos 1950,
e aí desenvolveu a seu modo o estudo da cultura de massa (O cinema e o homem imaginário, 1956, As Estrelas, 1957). Os anos 60 (do século XX) são consagrados a uma “sociologia do presente” com o O Espírito do Tempo (2 volumes, 1962 e 1972); O Rumor de Orléans (1969) e inúmeros artigos sobre a juventude, a canção, a televisão, fenômenos considerados até então como fúteis pelos sociólogos (Sociologie, 1984). Com A metamorfose de Plozevet (1967), ele assina uma monografia exemplar sobre a transformação de uma pequena comunidade francesa por volta dos anos 1960.
Intelectual, Morin participou da criação da revista Argumentos que será de 1956 a 1962, um lugar de efervescência intelectual. Já encontramos aí, os temas desenvolvidos posteriormente: o apelo à fundação de uma “política de civilização” – que ultrapassa a política no termo restrito do sentido - mas também o fundamento da vida em sociedade, a comunicação, o amor, a sabedoria, a felicidade. A ecologia política, muito antes do tema estar na moda.
Tudo isso bastaria para  ele exercer uma carreira acadêmica. Mas Edgar Morin não é homem de se deixar encerrar num campo disciplinar.
Desde O Homem e a morte (1951), ele havia abordado alguns paradoxos da condição humana e do conhecimento: o ser humano recusa sua condição de mortal inventando uma série de mitos.
Seu pensamento é ao mesmo tempo um formidável instrumento de conhecimento e de engano. Essa revolta contra sua condição de animal mortal denota uma “inadaptação do homem à natureza, e uma inadaptação do indivíduo humano à sua própria espécie”.
Por ocasião de uma estadia nos Estados Unidos, durante o ano de  1960, ele descobre as ciências do ser vivo, a importância da biologia, da etnologia animal, da cibernética e do pensamento sistêmico. É o início de um renascimento  intelectual (narrado no seu diário, O Vivo do sujeito).
Morin decide então dar um novo caminho ao seu pensamento, e de se consagrar inteiramente à concepção de “uma antropologia fundamental”. Ele se proporá como missão, de descompartimentar as ciências humanas entre elas e de descompartimentar as ciências dos seres vivos. Em 1973, O Paradigma perdido traça novas perspectivas. Trata-se de um prelúdio de sua importante obra: O Método, que será desenvolvido durante trinta anos.
O objetivo de “O Método” é o de promover uma reforma do pensamento. Um procedimento do espírito que procura rearticular aquilo que a pesquisa especializada separou. Isso não significa a promoção de um pensamento “holístico” que aboliria as diferenças, mas  de retomar o desafio já proposto por Blaise Pascal “Eu defendo a idéia de que é impossível compreender o todo sem compreender cada uma das partes, assim como compreender cada uma das partes sem conhecer o todo.”
O Método não pretende pesquisar uma “pedra filosofal” destinada a resolver todos os problemas. À diferença do Discurso do Método de Descartes, o procedimento de Morin recusa, de ínicio, a idéia de uma verdade definitiva, que seria possível de ser atingida, e de um conhecimento absolutamente rigoroso a ser colocado em ação.
A idéia do inacabado, da incerteza, da relatividade do conhecimento está no centro do seu pensamento.
Trata-se inicialmente de aprender a ultrapassar as oposições binárias natureza/cultura, indivíduo/sociedade, determinismo/liberdade, sujeito/objeto.
Aprender a combinar os determinismos e as incertezas do acaso, combinar entre eles as forças múltiplas que se entrelaçam em toda a identidade humana. Para isso, Morin colocou em destaque alguns princípios do pensamento desenvolvidos a partir do método sistêmico e das ciências da auto-organização: princípio da recursividade, princípio dialógico, princípio hologramático.
Daí decorre uma visão do mundo social onde a ordem e a desordem se misturam, onde as ações individuais e os acontecimentos são ao mesmo tempo produtos e produtores da dinâmica social, onde os fenômenos de emergência e de bifurcação vem romper as regularidades da ordem social.
Ao mesmo tempo em que Edgar Morin elabora uma nova conduta do pensamento, ele vai se ligar a alguns fenômenos contemporâneos. Para sair do século XX (1981), Da natureza da URSS (1983), Pensar a Europa (1987).

O último será o primeiro?

Trinta anos após ter lançado seu grande projeto, Morin continua isolado. O projeto do Método suscitou dois tipos de reações.
Entre alguns, ele suscitou um ímpeto de grande simpatia, mas com pequeno efeito (o quadro universitário deixa pouco lugar ao generalista).
Entre outros, suscitou um arrogante desprezo: Morin é tido como um fabricante de idéias, uma pessoa que faz mil coisas ao mesmo tempo mas que é incapaz de afrontar os problemas científicos concretos.
No momento em que as ciências humanas sucumbem sob o próprio peso de pesquisas, teorias, dados, análise, no momento em que a complexidade é consagrada como a “ciência do século XXI”, Morin seria o último dos pensadores à moda antiga?
A menos que ele seja o primeiro de uma nova era...
Jean François-Dortier

Integrar o observador na observação

A reflexão tornou-se o extremo limite a que se pode chegar  com a pesquisa nas ciências humanas. O pesquisador deve revelar suas condições de produção, seus pressupostos, aprender a examinar atentamente seus próprios condicionamentos intelectuais. Há muito tempo que Edgar Morin tem feito deste princípio de auto análise um dos pilares de seu método de pensamento.
Desde a Autocrítica (1959), ele se dedica a uma análise de seu engajamento com o comunismo, e posteriormente, de suas desilusões.
E em vez de explicar tudo pelo empreendimento da ideologia comunista, ele procura esmiuçar as instâncias individuais da auto-ilusão, como por exemplo, uma pensamento hiper crítico pode produzir as piores cegueiras; como as idéias são ao mesmo tempo fonte de todos os nossos conhecimentos e fazem pano de fundo a um parte do real. Ele retoma o tema de Para sair do século XX (1981).
Nos seus diários (O X da questão, 1969), Diário da Califórnia (1970), Diário de um livro (1981), Morin atua sem dissimulação para narrar em quais condições ele escreve, estuda e produz suas idéias. J.F.D.

“Nós temos necessidade de uma cultura mais ampla do que aquela da   disciplina. Eu diria mesmo, uma cultura geral, uma cultura humanista.
Atualmente, até nas empresas, nos lugares  onde triunfava a tecnocracia, damo-nos conta de que conhecer um pouco o mundo das idéias filosóficas, aquela da música ou da literatura não é simplesmente um ornamento que permite brilhar nos jantares de negócios.
É também qualquer coisa que ajuda a viver, portanto a trabalhar.
Na universidade como na pesquisa, a hiper especialização conduz as pessoas a se considerar como propriedades exclusivas da parcela do território que elas ocupam, e a proibir que pensemos a esse respeito.”

outubro – novembro de 2007