Morin

O pensamento complexo de Edgar Morin e sua Ecologia da ação

Angélica Sátiro
Revista Linha Direta. Publicação Mensal dos Sinepes e da AEBJ, Ano 5, nº 57, 2002

A Revista Linha Direta vem realizando um interessante trabalho de intercâmbio e divulgação de idéias de pensadores contemporâneos através de sua seção HIPERTEXTO.

Preservando um espaço que vai além de uma simples entrevista, convida intelectuais inquietos e produtivos, agentes de mudança e de transformação para "dialogar" com nosso leitor. Nesse número, fomos brindados com um presente: o sorriso amável do francês Edgar Morin.

Edgar Morin (Paris, 1921) é considerado um dos maiores pensadores do século XX. É doutor honoris causa em 17 universidades de diversos países, tais como Itália, Portugal, Espanha, Dinamarca, Grécia, México, Bolívia e Brasil (em João Pessoa e Porto Alegre). Para estudar os problemas do humano e do mundo contemporâneo, passa por distintas áreas do conhecimento: ciências biológicas, ciências físicas e humanas entre outras. Tem formação pluridisciplinar, é sociólogo, antropólogo, historiador, geógrafo e filósofo, mas acima de tudo é um intelectual livre que nos propõe uma visão transdisciplinar do pensamento. Tem mais de 40 livros de Epistemologia, sociologia, política e antropologia, publicados e traduzidos em diversas línguas. Merece ser destacada sua obra de 4 volumes, intitulada El Mètode que trata da transformação das ciências e do seu impacto na sociedade contemporânea. É diretor do Centro de Estudos Transdisciplinares em Paris, (EHESS), presidente da Agência Européia de Cultura da UNESCO e presidente da Associação de Pensamento Complexo. É um apaixonado pelas artes em geral, principalmente pela literatura e pelo cinema. E gosta de ressaltar que durante a II Guerra Mundial, foi combatente voluntário da resistência francesa nos anos de 1942 a 1944, lutando contra o nazismo e o stalinismo.

Nosso encontro ocorreu no cenário gótico da Universidade de Girona, na Espanha. Edgar Morin estava lá como convidado do professor José Maria Terricabras, da cátedra Ferrater Mora, a quem devemos nosso mais caloroso agradecimento por facilitar essa entrevista.

Linha Direta ‑ Qual é a educação necessária para o século XXI?

Edgar Morin ‑ Há que se fazer uma total reorganização da educação. E essa reorganização não se refere ao ato de ensinar. Refere‑se à luta contra os defeitos do sistema que estão cada vez maiores. Por exemplo, o ensino de disciplinas separadas e sem comunicação entre si produz uma fragmentação e uma dispersão que nos impede de ver globalmente coisas que são cada vez mais importantes no mundo. Existem problemas centrais e fundamentais que permanecem completamente ignorados ou esquecidos e que são importantes para qualquer sociedade e qualquer cultura.

Linha Direta ‑ O senhor se refere ao seu estudo sobre os sete saberes necessários para a educação do futuro?

Edgar Morin ‑ Sim, refiro‑me aos sete saberes necessários que implicam em ensinar a:

• Reconhecer as cegueiras do conhecimento, seus erros e ilusões.
• Assumir os princípios de um conhecimento pertinente
• Condição humana
• Identidade planetária
• Enfrentar as incertezas
• Compreender
• Ética do gênero humano

Linha Direta ‑ Poderia fazer um comentário mais detalhado para cada um deles?

Edgar Morin ‑ Entende‑se reconhecer as cegueiras do conhecimento, seus erros e ilusões, é assumir  o ato de conhecer como um  traduzir e não como uma foto correta da realidade. Trata‑se de armar nossas ates para o combate vital pela lucidez e isso o significa estar sempre buscando modos de conhecer o próprio ato de conhecer:

Por assumir os princípios de conhecimento pertinente, entende‑se a necessidade de ensinar os métodos que permitam apreender as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo se mundo complexo. Trata‑se de envolver uma atitude mental capaz abordar problemas globais que contextualizem suas informações parciais e locais.

Ensinar a condição humana deveria ser o objeto essencial de qualquer sistema de ensino e isso passa considerar conhecimentos que estão dispersos em várias disciplinas como as ciências naturais, as ciências humanas, a literatura e a filosofia. As  gerações precisam conhecer a unidade e a diversidade do humano.

Ensinar a identidade planetária tem a ver com mostrar a complexidade da crise planetária que caracteriza o século XX. Trata‑se de ensinar a história da era planetária, mostrando como todas as partes do mundo necessitam ser intersolidárias, a vez que enfrentam os mesmos problemas de vida e de morte.

É preciso aprender a tentar as incertezas reveladas ao longo do século XX através da microfísica, da termodinâmica, da cosmologia, das ciências biológicas evolutivas, das neurociências e das ciências históricas. É preciso aprender a navegar no oceano das incertezas através dos arquipélagos das certezas.

Compreender é ao mesmo tempo meio e fim da comunicação humana, portanto não pode ser algo desconsiderado pela educação. E, para tanto, precisamos passar por uma reforma das mentalidades.

Por ética do gênero humano, entendo uma abordagem que considere tanto o indivíduo, quanto a sociedade e a espécie. E isso não se ensina dando lições de moral. Isso passa pela consciência que o humano vai adquirindo de si mesmo como indivíduo, como parte da sociedade e como parte da espécie humana. Isso implica conceber a humanidade como uma comunidade planetária composta de indivíduos que vivem em democracias.

Linha Direta ‑ Sua proposta é muito interessante, mas parece ir contra um movimento que tem ocorrido tanto na Espanha, quanto no Brasil. Trata‑se da proposta de realizar avaliações que buscam medir a quantidade de conhecimento dado por essas disciplinas fragmentadas. Com base em dados vindos dessa forma de avaliar, separam‑se os alunos pelo nível de informação que foram capazes de reter e se afirma uma média educacional nacional. Como o senhor vê esse tipo de iniciativa?

Edgar Morin ‑ Não sou a favor de nenhum tipo de segregação, uma vez que ao longo da vida passamos por tudo: atrasos, progressos, encontros, desencontros, crises. Esse tipo de avaliação é uma forma de segregação que não ajuda a organizar o conhecimento e suas relações entre as distintas informações. Os dados e fatos que cabem em avaliações desse tipo não são conhecimentos, representam um vazio que não reflete nenhum dos sete saberes enunciados anteriormente.

Linha Direta ‑ Um outro contra‑exemplo para a idéia que o senhor apresenta seria o ocorrido em 11 de setembro de 2001, não é verdade?

Edgar Morin ‑ É evidente que sua pergunta é muito importante e pede um tipo de resposta que vai além do tempo que podemos dedicar a essa entrevista. Mas vou tentar resumir o que penso sobre isso. Temos ouvido falar de choque de civilizações em discursos pessimistas que revelam um maniqueísmo simétrico com tdireção trágica. De um lado, o fenômeno da modernização que é baseado na homogeneização geral, é um processo que suscita diversos tipos de reação nas civilizações mais antigas: Elas se aferram a seu passado, às suas raízes e à sua religião, porque têm medo de perder sua identidade. De outro lado, fracassou no mundo ocidental, a fé no progresso tecnológico e econômico como algo que nos conduzia à um mundo melhor. Já se sabe que esse progresso pode gerar inclusive o fim do mundo com uma guerra atômica.
Mas, não podemos entender as conseqüências possíveis desse momento como determinação histórica. E, portanto, não devemos aceitar a idéia da inevitabilidade da guerra.

Linha Direta ‑ Mas parece que temos outros indícios que também vão a direção contrária ao que o senhor propõe. Estamos vendo que tanto na Europa quanto em outros países do mundo, a extrema direita tem avançado de modo muito evidente. Como o senhor vê esse retorno à ideologia de extrema direita?

Edgar Morin ‑ Concordo que haja uma ressurreição de coisas do passado que deveriam ter sido esquecidas ao longo do tempo. Mas, a questão é saber se isso é algo que permanecerá minoritário e localizado ou se pode vir a assumir grandes proporções em todo mundo. Compreende‑se que isso ocorre em função do clima de incerteza atual e da angústia gerada por essa política do dia –a ‑dia que não dá esperanças de melhora para seus cidadãos. A globalização e a imigração que vem principalmente da África e dos países da América do Sul têm causado na Europa um aumento da necessidade de identidade nacional. Essa identidade de pátria faz com que as relações de cooperação internacional fiquem frágeis, além é claro de dar lugar a inúmeros tipos de ações racistas. A imigração da forma como está ocorrendo tem trazido questões complexas como a marginalização, a delinqüência juvenil e o conseqüente aumento de violência urbana. Da forma como aparecem, esses são fatores que favorecem a extrema direita.

Mas volto a insistir que não são determinismos, o futuro está limpo e não se deve pensar que o perigo é inevitável. Precisamos estar em estado de vigilância para que isso não cresça, mas não em estado de alarme como se esse fosse um mal inevitável. Para contrapor a tudo isso está a educação. E é por isso que venho desenvolvendo os últimos volumes da obra . O Método. O quinto volume está dedicado à educação e no sexto volume, desenvolvo minha proposta ética de resistência à crueldade do mundo.

Linha Direta ‑ O senhor poderia nos explicar as linhas gerais dessa sua proposta ética?

Edgar Morin ‑ Falo de autoética, de sócio­ética, de antropo‑ética e de ética planetária. Isso porque vejo o indivíduo, a sociedade e a espécie como categorias interdependentes. Diante de toda a complexidade contemporânea não há como descartar alguma dessas perspectivas. O problema atual da ética não é o dever, a prescrição, a norma. Não precisamos de imperativos categóricos. Precisamos saber se o resultado de nossas ações corresponde ao que queríamos para nós mesmos, para a sociedade e para o planeta. Já sabemos que não basta ter boa vontade, uma vez que em nome dela foram cometidas inúmeras ações desastrosas. A minha ética é uma ética do bem pensar e está implícito nisso toda a minha idéia de pensamento complexo.

Linha Direta ‑ O senhor poderia apresentar uma síntese de sua teoria do pensamento complexo?

Edgar Morin ‑ Muitos me vêem como sintetizador, unificador, afirmativo e suficiente que trata de apresentar uma teoria sistemática e global. Mas, devo admitir que isso é um engano, eu não tenho uma teoria que sai do bolso afirmando: "aqui estou, podem jogar fora seus paradigmas anteriores!" Claro que essa proposta de pensamento complexo é fruto de um esforço em articular saberes dispersos, diversos e adversos. Mas a própria idéia de complexidade conduz a uma impossibilidade de unificar, uma vez que parte da incerteza admite o reconhecimento cara a cara com o indizível. A complexidade não é uma receita que eu dou, é apenas um convite para a civilização das idéias.

O pensamento complexo é a união entre a simplicidade e a complexidade. Isso implica processos como selecionar, hierarquizar, separar, reduzir e globalizar. Trata‑se de articular
o que está dissociado e distinguido e de distinguir o que está indissociado. Mas não é uma união superficial, uma vez que essa relação é ao mesmo tempo antagônica ‑e complementária.

Linha Direta ‑ O senhor gostaria de enviar alguma mensagem especial para os leitores da Revista Linha Direta?

Edgar Morin ‑ Sinto‑me muito bem no Brasil e agradecido pelo reconhecimento que me dedicam, no mês de agosto de 2002, quando estive em São Paulo. Sempre estou em contato, porque me sinto em harmonia com os pensadores e educadores brasileiros, vejo que tratamos questões similares com enfoques similares e isso me alegra muito. Que sigamos com nossa ecologia da ação!

Linha Direta ‑ A revista agradece ao professor Josep Maria Terricabras e à cátedra Ferrater Mora da Universidade de Girona pelo apoio à realização dessa entrevista, bem como à professora Irene de Puig pela facilitação às informações. Agradece evidentemente ao entrevistado que, por sua atitude durante a entrevista, demonstrou ser coerente com as idéias que apresenta. Pedimos permissão a ele para encerrar essa entrevista citando‑o:

"Somos habitantes da Terra. Citamos a Holderlin e completamos sua frase dizendo: prosaica e poeticamente o homem habita a Terra. Prosaicamente (trabalhando, fixando‑se em objetivos práticos, tentando sobreviver) e poeticamente (cantando, sonhando, gozando, amando, admirando), habitamos a Terra.

A vida humana está tecida de prosa e poesia. A poesia não é só um gênero literário, é também um modo de viver a participação, o amor, o fervor, a comunhão, a exaltação, o rito, a festa, a embriaguez, a dança, o canto que transfiguram definitivamente a vida prosaica feita de tarefas práticas, utilitárias e técnicas. Assim, o ser humano fala duas linguagens a partir de sua língua. A primeira denota, objetiva, funda‑se no lógica do terceiro excluído. A segunda fala através da conotação, dos signifcados contextualizados que rodeiam cada palavra, das metáforas, das analogias, tenta traduzir emoções e sentimentos, permite expressar a alma. (...) No estado poético, o segundo estado se converte em primeiro. "

Esperamos que a entrevista inspire o leitor a seguir educando prosaica e poeticamente, lembrando que um estado pode converter‑se em outro.

*Angélica Sátiro é escritora, educadora e doutoranda na universidade de Barcelona. Investiga as relações entre criatividade e ética.