Morin

No Rolar Das Pedras

Danilo Santos de Miranda
livro UM ANO SÍSIFO - DIÁRIO DO FIM DE SÉCULO, da Coleção Diários de Edgar Morin, 2012

É difícil apreender o quanto de movimentação humana (entre conflitos e harmonias) o ano de 1994 nos apresentou. Não é complicado entender, para nós brasileiros, também envolvidos num grande plano econômico, o que se passava no planeta. Eclosões de guerras e guerrilhas, sensações apocalípticas, conflitos e arranjos políticos, genocídios, “desenvolvimentos econômicos”, dificultosas esperanças nos assombravam ao mesmo tempo em que nos encantavam as possibilidades anunciadas.

Aos 73 anos de idade na época, o pensador francês Edgar Morin registrou seu dia a dia do ano de 1994. Não eram poucas suas atribuições, muito menos sua sensibilidade em anotar os mínimos abalos sísmicos que atingiam sua existência. Entre reflexões profundas sobre política, economia, sociologia, o autor estende um véu de cotidiano que nos transporta ao nosso próprio modo de vida. Assim, enquanto discute assuntos duros, muitos com uma forte carga de comprometimento com o saber, nos aproxima da intelectualidade com gestos simples de um homem comum que se sente diariamente compelido a viver: comer uma boa comida, beber vinho, ver filmes e seriados na TV por puro prazer, dormir e sonhar.

Talvez o que haja de mais contundente neste diário, que o SESC São Paulo traz ao Brasil em tradução inédita junto com outros dois volumes, seja esta linha tênue entre “realidades” e “teorias” – no caso, ambas “ficcionalizadas” por Morin (se entendermos que todo contar é uma ficção). Entre sentir/pensar/refletir o que vive e viver no inesperado que as horas nos trazem (sem tempo para que reflexões e pensamentos se formem), o autor nos aproxima do desenvolvimento de importantes temas pertinentes à humanidade incrustados nas idiossincrasias que nos acompanham:

“O mundo: de um lado, os processos de deslocamento, de ódio, de crises; do outro, assistido por mais de um 1 bilhão de telespectadores de todos os continentes, o Campeonato Mundial de Futebol, jogos e festas planetárias.”

Isso nos dá a sensação de que tempo e espaço se esticam e se contraem, se encontram e se afastam: um acontecimento em algum país (quiçá Bósnia, Ruanda, Canadá ou França), acompanhado de um tempo que se distorce entre o que já foi e o que está sendo (consequências de um mês funesto que se espalham pelos dias procedentes ou já agora consolidados nos dias de hoje), encontra outro acontecimento em algum outro lugar (como um almoço que lhe trouxe felicidade ou um vinho que lhe deu uma enxaqueca), acompanhado com o tempo narrado, também distorcido por aqueles que o leem (escrito em 1994, lido em 2012, entendido há tanto tempo, esquecido no futuro que ora se encontra presente).

Tempos, espaços, importâncias dão a este livro um tom de vida atenta aos fluxos dos corpos, das consciências, dos desejos. Como Sísifo, condenado ao corpo-pedra rolando pelos morros do conhecimento e da ignorância, Edgar Morin sente, prevê, sintetiza, flana e se deixa largar em queda-livre sobre nossos pensamentos e sensações por um ano quase sombrio, não fossem os impulsos solares de uma existência que, por mais que sofra os desagravos do mundo, sempre se dedica a criar espantosas belezas.



UM ANO SÍSIFO – DIÁRIO DO FIM DE SÉCULO [resumo]

Escrito de 1º de Janeiro a 31 de dezembro de 1994
apresentação: Danilo Santos de Miranda
tradução: Edgar de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco
orelha: Mauro Maldonato
560 páginas
Edições SESC SP

Com subtítulo Diário sobre o fim do século (1994), Um ano sísifo faz uma analogia ao mito de Sísifo, condenado pelos deuses a levar de volta, continuamente, uma grande pedra ao topo de uma montanha, depois de ter ela rolado pela enésima vez em direção ao vale. Relata um ano sísifo na história de um planeta cujas esperanças caíram e onde tudo parece ter que começar do zero. Um ano sísifo na vida de um homem (o autor) onde todas as resoluções para reformar sua vida afundam e que deve partir do ponto zero. Compõem ainda Um ano sísifo fatos marcantes e transformadores na história, narrativas sobre a vida cotidiana e de eventos públicos, momentos de ternura e melancolia profundos, impressões e perguntas sobre nosso tempo. Também discorre sobre os filmes (alguns seriados, como Guerra nas Estrelas) que vê (geralmente na TV), comidas e vinhos.

Segundo Mauro Maldonato, na orelha do livro, “Este diário não é a lúcida focalização dos infinitos altos e baixos da existência, mas a atenta fenomenologia da viagem de um homem em direção a seu destino. Somente esse exercício pode liberá-lo do surpreendente e enganoso espetáculo de um eu legislador e dominador. Ao ir ao encontro de seu próprio destino, Morin é consciente de cada coisa, livre do sonho de uma outra existência, dos medos, das falsas crenças em ídolos religiosos, de qualquer vocabulário de identidade. Seu caminho, que é o caminho do pensamento e o pensamento do caminho, é iluminado somente pela luz tênue de sua própria razão. Assim chega nas proximidades da vida: um grande rio alimentado pelas correntes da fraternidade, mas também pela luta e pela esperança, que conflui, juntamente com outros rios, no grande mar da humanidade.”


UM ANO SÍSIFO, DIÁRIO DO FIM DE SÉCULO [trechos]

“Quinta-feira, 6 de janeiro. Sarajevo está sob bombardeios desde o Natal. (...) Durante este tempo, a maioria dos intelectuais franceses guardam silêncio. Alguns passaram da imprecação à autoflagelação. Alguns, que condenam os covardes que se desviam de Sarajevo, denunciam, ao mesmo tempo, os que para ali se dirigem como prostitutas ávidas de publicidade. Que situação miserável. (...) Ainda postergo meu artigo para o Le Monde, “Paz na ex-Iugoslávia”

“Inflação semântica da palavra ‘racista’. Ouço dizer ‘Os franceses são racistas’, ‘os judeus são racistas’, ‘os ciganos são racistas’.”

“O verdadeiro debate filosófico, ético e político sobre as manipulações genéticas, transplantes de órgãos etc., não aconteceu. Por isso, as questões são múltiplas: Devemos modificar a ‘natureza humana’? Dentro de que limites e em que sentido? Devemos racionalizar o sistema genético, ou seja, impor uma norma para aceitar o nascimento de uma criança? O que acontecerá se as noções de pai, mãe, filho, filha forem modificadas ou eliminadas?”

“Domingo, 27 de março. A Itália vota. A revolução dos juízes criou um grande vazio político quando procedeu à limpeza do Partido Democrata Cristão e do Partido Socialista, e do grande vazio surgiu Sílvio Berlusconi. Será que ele vai ganhar as eleições?”

“Jantar na casa de Corneille e Zoé Castoriadis, com o casal Octávio Paz e o casal Julian Mesa. Aos 80 anos, Paz continua um homem muito ativo, jovial. Para mim, ele é o grande espírito vivo desse século. Lembramos de nosso encontro no México, há vinte anos, e da cerimônia em honra do Marquês de Sade, que André Breton organizou na casa de Joyce Mansour.”

“Não é absurdo que cada uma dessas máquinas, constituída de bilhões de células tão bem organizadas, esteja destinada ao aniquilamento? Não é atroz que nossas máquinas, dotadas vitalmente de egocentrismo e de consciência de si, sejam conscientes de sua própria morte, bem como do desaparecimento de seu próprio mundo? Tarde demais para inserir esses belos pensamentos em meu capítulo ‘A crueldade do mundo’.”

“O ano de 1994, na Europa, foi atormentado pela Bósnia, mas o enorme acontecimento para o mundo é Ruanda. A imensidão de nossa impotência é proporcional à imensidão do crime. O ano termina, também, com o cerco de mil dias de Sarajevo, o ataque assustador à Chechênia, a guerra civil na Argélia e, ainda, com as mortes em Ruanda... Por toda parte no mundo não vejo senão regressão: após a agonia do comunismo, a democracia está doente; em contrapartida, o mercado mundial triunfa. Mas para onde ele nos arrasta? Para a grande prosperidade? Para a grande calamidade? O século XX morreu em 1989. Penso que, desde então, seu cadáver apodreceu e que a História se petrificou nessa decomposição sem poder escapar dela. Penso até que, como em 1934, 1935, 1936, 1937, a História iniciou uma trajetória sonambúlica rumo a uma nova catástrofe.”